domingo, 16 de setembro de 2007

HARRY POTTER NO MUNDO ONDE JÁ NÃO HÁ SEGREDOS


Quem nunca foi confrontado, numa sala de cinema, com um "vizinho" repetente na visão do filme, que se compraz em antecipar, para a sua companhia de ocasião, a cena que se segue? E em voz tão audível que, por exemplo, num policial, chega a estragar a expectativa sobre a identidade do criminoso? Convenhamos que é um desespero...A leitora Mariana Cabral deve ter sido assolada por sentimentos semelhantes (na sua mensagem ao provedor, fala mesmo em "fúria" e "revolta") quando leu, na capa do DN de 22 de Julho : "Revelado. Afinal Harry Potter não morre no fim do novo livro. Saiba porquê. Reportagem, págs. 28 e 29".Mariana Cabral explica que já estava a ler o livro, "ansiando, tal como outros milhões de leitores, pelo fim da história, quando foi abruptamente interrompida por esta notícia". E desfila, de seguida, alguns argumentos, que julga comprovativos de que o DN "não tem respeito pelos leitores, nem do livro nem do jornal".João Marcelino, director do DN, a solicitação do provedor, justifica a opção: "Este assunto foi, na altura, debatido internamente, pois alguns jornalistas levantaram as mesmas dúvidas que esta leitora. Prevaleceu na Direcção a opção pela notícia, no que fomos acompanhados por outros jornais internacionais. Saliento que a revelação é curta, não mais do que qualquer fã interessado no assunto já com certeza saberia, uma vez que na Internet apareceram bastantes sites a publicar o desfecho (...). Relevo que, ainda assim, o DN teve alguns cuidados nesta opção." Depois de transcrever o texto da chamada de primeira página, Marcelino acrescenta: "Tivemos ainda o cuidado de não revelar abruptamente o resto, relegando-o, nas páginas interiores, para uma caixa cujo título indicava 'se é um fã que quer não saber o fim da história, não leia isto'. O texto restante estava em letras mais pequenas." A finalizar, o director do DN deixa uma pergunta, pertinente, "para reflexão: até que ponto os autores podem esperar utilizar a comunicação social para a promoção dos seus interesses comerciais sem ao menos estarem disponíveis para pagarem o preço de uma simples notícia?"O provedor decidiu solicitar ainda comentários a duas personalidades com pública competência neste domínio (os depoimentos integrais são publicados ao lado), a escritora e crítica literária Clara Ferreira Alves e o cineasta e crítico de cinema Lauro António. Embora com nuances, ambos admitem ser praticamente impossível, nos tempos que correm, preservar um "segredo" alvo de tanta curiosidade pública. O que justificará, portanto, a opção do DN.O provedor afina pelo mesmo diapasão e identifica-se com as precauções tomadas pelo jornal. Reconhece, no entanto, que o DN poderia ter levado o seu escrúpulo um pouco mais longe, por exemplo com uma chamada de primeira página do seguinte teor: "Revelado. Se estiver interessado, saiba o desfecho do novo livro de Harry Potter. Reportagem, págs. 29 e 29." E assim se teria poupado a "fúria" e a "revolta" de Mariana Cabral e, certamente, de mais alguns leitores.

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