
Quem nunca foi confrontado, numa sala de cinema, com um "vizinho" repetente na visão do filme, que se compraz em antecipar, para a sua companhia de ocasião, a cena que se segue? E em voz tão audível que, por exemplo, num policial, chega a estragar a expectativa sobre a identidade do criminoso? Convenhamos que é um desespero...A leitora Mariana Cabral deve ter sido assolada por sentimentos semelhantes (na sua mensagem ao provedor, fala mesmo em "fúria" e "revolta") quando leu, na capa do DN de 22 de Julho : "Revelado. Afinal Harry Potter não morre no fim do novo livro. Saiba porquê. Reportagem, págs. 28 e 29".Mariana Cabral explica que já estava a ler o livro, "ansiando, tal como outros milhões de leitores, pelo fim da história, quando foi abruptamente interrompida por esta notícia". E desfila, de seguida, alguns argumentos, que julga comprovativos de que o DN "não tem respeito pelos leitores, nem do livro nem do jornal".João Marcelino, director do DN, a solicitação do provedor, justifica a opção: "Este assunto foi, na altura, debatido internamente, pois alguns jornalistas levantaram as mesmas dúvidas que esta leitora. Prevaleceu na Direcção a opção pela notícia, no que fomos acompanhados por outros jornais internacionais. Saliento que a revelação é curta, não mais do que qualquer fã interessado no assunto já com certeza saberia, uma vez que na Internet apareceram bastantes sites a publicar o desfecho (...). Relevo que, ainda assim, o DN teve alguns cuidados nesta opção." Depois de transcrever o texto da chamada de primeira página, Marcelino acrescenta: "Tivemos ainda o cuidado de não revelar abruptamente o resto, relegando-o, nas páginas interiores, para uma caixa cujo título indicava 'se é um fã que quer não saber o fim da história, não leia isto'. O texto restante estava em letras mais pequenas." A finalizar, o director do DN deixa uma pergunta, pertinente, "para reflexão: até que ponto os autores podem esperar utilizar a comunicação social para a promoção dos seus interesses comerciais sem ao menos estarem disponíveis para pagarem o preço de uma simples notícia?"O provedor decidiu solicitar ainda comentários a duas personalidades com pública competência neste domínio (os depoimentos integrais são publicados ao lado), a escritora e crítica literária Clara Ferreira Alves e o cineasta e crítico de cinema Lauro António. Embora com nuances, ambos admitem ser praticamente impossível, nos tempos que correm, preservar um "segredo" alvo de tanta curiosidade pública. O que justificará, portanto, a opção do DN.O provedor afina pelo mesmo diapasão e identifica-se com as precauções tomadas pelo jornal. Reconhece, no entanto, que o DN poderia ter levado o seu escrúpulo um pouco mais longe, por exemplo com uma chamada de primeira página do seguinte teor: "Revelado. Se estiver interessado, saiba o desfecho do novo livro de Harry Potter. Reportagem, págs. 29 e 29." E assim se teria poupado a "fúria" e a "revolta" de Mariana Cabral e, certamente, de mais alguns leitores.

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